Pode parecer arrogância à primeira vista, mas descobri que preciso falar sozinho.
Na verdade, escrever é sempre um falar sozinho. Ocorre que a internet – sobretudo as redes sociais – é que nos acostumaram por décadas a imaginar que, aspas, dialogamos com alguém ou com a praça pública.
Não, nunca dialogamos ali. A rigor, não.
Se eu mesmo colocasse na balança tudo o que já disse em rede social ao longo desses anos, em que pese ter passado por várias fases mentais durante o período, não saberia precisar o volume de texto despejado ali, nem de que categoria, se boa ou ruim.
Claro, sejamos justos, muita (muita? exagero aqui), mas um número razoável de gente boa conheci ali, nas redes. Portanto, nenhuma crítica a elas em específico. Fiz alguns amigos e amigas, e do melhor modo, qual seja, por afinidade e confluência de interesses.
Mas eu precisava falar sozinho. Por isso ensaio essa volta tímida ao blog. Eu precisava do silêncio, do espaço e da sorte de ser encontrado por quem quer ler de verdade o que escrevo e se interessa pelo que tenho a dizer. O que é um privilégio para mim. Aqui, no blog, sinto-me livre para usar a primeira pessoa em tom intimista e confessional, sem parecer tão autorreferente nem ávido pelo aplauso.
De resto, o blog é como o livro. Claro, o meio é outro, eletrônico, digital; mas o princípio é bem parecido ao livro: lemos o que o autor pôs ali, e aquilo nos dá o que pensar. Por essa singela atitude, nossa compreensão vai se ampliando, nossos horizontes se alargam. E o melhor: sem caixinhas de comentários. O livro que nos fala é surdo e não comporta “interações”.
Claro, o blog não é tão rígido como o livro; pode-se comentar aqui e enviar um alô ao autor (mande um alô, se quiser; comente abaixo). Porém, este ambiente mais privativo inspira um respeito maior, uma consideração diferente, um cuidado que na impessoalidade quicante das redes sociais simplesmente não acontece.
Como pretendente a escritor, eu poderia me oficializar mais, buscar contatos, virar instituição. Mas escritor não é monumento. Se assim fazem dele, é outra coisa. Na prática, escritor é o que escreve, em qualquer ocasião, se houver o que escrever.
Por isso volto ao blog — como dantes, muito dantes. Estou feliz por este retorno. De sorte que vou aos pouquinhos, e espero que tudo corra bem.
Trilha sonora: Pato Fu - Perdendo Dentes
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